Olhar Diverso por Raquel Ramos Machado

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09 - janeiro 2012
por raquelrmachado na categoria Poesia, Viagem

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.

 Trecho do poema “A melhor maneira de viajar é sentir” de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.

O desejo de conversar sobre tantos assuntos me fez pular a continuação de Cingapura. Mas ainda há muito a falar.

Viajo e penso: como aprender, integrar-me, chacoalhar a alma com os conhecimentos de um povo diferente?

Mesmo em viagens curtas, é possível sentir a vibração de uma sociedade. A culinária e a tentativa de inserção em hábitos do cotidiano, por exemplo, possibilitam captar algumas ondas.

Geralmente, procuro comer as comidas típicas e conversar com cidadãos, fazer programas locais e não apenas turísticos. Ir ao cabeleireiro é extremamente cultural apesar de alguns considerarem pura futilidade (como isso é muito polêmico, um post futuro! – rs).

Aventurar-se na culinária requer disposição de espírito (pela textura e visual), e, muitas vezes, física (pelas possíveis indisposições).

Cingapura é cosmopolita e culturalmente plural, de população heterogênea, formada por chineses, malaios e indianos. Sendo assim, oferece comida para gostos variados. Pela proximidade com o Japão, há incontáveis restaurantes de sushi.

Até restaurantes sofisticados como o DB Bistrot de Nova York, do chef Daniel Bouloud, têm filial lá.

Mas mesmo as redes de restaurantes e lanchonetes procuram fazer adaptações ao paladar local. Investiguei, então, a preferencial geral e adivinhem… Frango com couro! Não se trata de um prato popular, mas de um prato que os restaurantes de um modo ou de outro têm. Eles vendem até o couro separado em vários formatos, como fazemos com biscoitos.

Olhando a diversidade de couro, só por curiosidade

. Não gosto tanto de frango, mas para entrar no clima, aventurei-me em alguns pratos. Oh, mas logo cheguei a meu limite, por aversão à textura. O mais impressionante: a intolerância veio com o Mac Chicken. Fui ao Mac Donalds procurando algo de sabor neutro, quase plástico mesmo, e pedi o sanduíche. Quando mordi, senti o couro molinho do frango na parte de cima e de baixo. Não comi até o fim. Eles não gostam de couro torradinho só, é couro cozido. Quando me lembro, meu estômago parece sentir os abalos sísmicos de Bali. Vantagem sem igual: emagreci um quilo, porque depois fiquei com o apetite reduzido. E com possibilidade de efeito emagrecedor futuro. Basta eu me lembrar, para perder o apetite. Poderia até inventar a dieta da “memória do couro de frango”. Arrrghhhh.

E apenas para que vejam que as excentricidades continuam, fui procurar comprar “tiger balm” (um cremezinho que uso no relaxamento da yoga e lá é muito barato) e vejam o que encontrei no  mercado: uma poção com cobras e lagartos. Dizem que é uma versão homeopática potentíssima do Viagra. É claro que não me senti nem um pouco tentada a provar, mas será que se fosse um rejuvenescedor facial de efeito prolongado eu teria? Melhor não imaginar muito, porque a dieta pode se tornar ainda mais severa.

Prateleira com oferta de tiger balm e a poção com cobras e lagartos no cantinho

Poção em destaque

Bem, o post era para ser sobre Cingapura, mas terminei me fixando tanto em excentricidades gastronômicas que termino lembrando o café mais famoso de Bali, retirado das fezes do Kopi Luwak, um bichinho fofinho, quando está de boca fechada (ele tem dentes horríveis). Provei-o e comprei uns saquinhos por uma verdadeira fortuna para ser café (U$ 30 por cada embalagem de 50 g da versão orgânica – quando pago em média R$ 5,00 por 250 g no supermercado).

Embalagem do café do Kopi Luwak

Aqui no Brasil, no Santo Grão Café da Oscar Freire, há uma versão semelhante feita com grãos retirados das fezes do Jacu (um pássaro).

Para amenizar, por fim, e ser justa com as ofertas de delícias, há lindas lojas de doces e padarias, de sabor tradicional. Um porto seguro entre cada aventura.

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